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EDIÇÃO NÚMERO
À sua maneira, São Paulo sempre foi uma cidade feliz. Tinha consciência de que sua felicidade era um sentimento escorado no vocábulo “não”. Mas era feliz. São Paulo sorria quando não dava de cara com o trânsito congestionado da Avenida Paulista, quando não morria afogada numa enchente do Anhangabaú, quando não lhe encostavam um revólver na nuca, quando não... São Paulo não era uma cidade. Transformara-se em entidade. Soturna, não vestia mais cor-de-rosa. Elegera o cinza como cor preferida. Rendida às contingências, não amava o belo, mas feio e o caótico, que sempre corresponderam à afeição. Contraditória, morava na fartura, mas não se horrorizava diante da janela com vista para a miséria. Conformada, passeava de Mercedes, vidro fechado, metida em roupas chiques, mas não se constrangia com a mão estendida do menino miserável no sinal de trânsito, símbolo do fracasso do capitalismo à brasileira. Orgulhosa da condição de locomotiva nacional, São Paulo não dormia. Súbito, decidiu recolher-se no meio da noite. Parece ter caído em si. Deu-se conta de que, de tanto praticar roleta-russa, estourou os próprios miolos. São Paulo já não reage. Rendida à sua própria imprudência, foi dormir mais cedo nesta segunda-feira. O trânsito da Paulista não estava bloqueado, como de hábito. Mas não havia quem se atrevesse à travessia. São Paulo não resistiu ao crime que o seu caos organizou.
Jozias de Souza http://blogdojozias.folha.blog.uol.com.br Escrito por Rogério às 13h19 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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