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EDIÇÃO NÚMERO
Diálogos - E então doutor? O que é que eu tenho? - Nada. - Graças! Estava morrendo de medo. - Não é tão simples. - O senhor está com uma cara doutor! Um susto. Bom saber que eu não tenho nada. - Desculpe, mas não é bem assim. Você realmente não tem nada. Veja esses exames. Raio X, endoscopia. Há semanas estamos procurando alguma coisa dentro de você. Mas não há nada. Nem coração, nem pulmões, fígados, rins. Não sei como dizer, mas o senhor é completamente oco por dentro. - Não é possível! - Realmente, não é possível. Mas é verdade. - E quantos ao fígado? - Nada. - E o estômago? - Nada. - E pra onde vai tudo aquilo que eu como? - É uma boa pergunta. - E agora? - Bom. Pelo seu histórico clínico, isso pode ser bom. Veja só. Nenhum problema cardíaco, nenhum problema pulmonar, nenhum problema intestinal. Também pudera, você não tem intestinos! - Vendo por esse lado... - Você nunca desenvolverá nenhum tipo de câncer. Salvo talvez o câncer de pele. E nunca precisará de transplantes. Aliás, eu não sei do que você vai morrer. E que diferença faz? Eu nem sei nem como é possível que você viva... - Pensando bem, eu sempre fui bastante leve, mesmo sendo gordinho. E quando alguém me apertasse, se eu fechasse a boca, eu ficava todo amassado como uma garrafinha de água quando a gente amassa e depois fecha a tampa sabe? Uma bisnaga. - Isto é incrível. - Mas há algum risco doutor? - Talvez. Talvez nós possamos empalhá-lo. - Como é que é? - Como os pássaros. Tira-se os miolos e se enche de palha. No seu caso, é só encher de palha. - O doutor acha que ajudaria? - Acho que sim. Você ficaria mais conservado. Os pássaros costumam durar indefinidamente. Muito conveniente. Poderíamos colocar uns olhos de vidro e... - Peraí doutor. Olhos de vidro também não. Além disso, empalhado, como é que eu me movimento? - Tem razão. - Eu não sei, estou confuso. Acho que preciso ir pra casa, conversar com minha mulher. - Não se preocupe. Se ela nunca percebeu nada, não será agora... - Meu Deus! Como é que eu vou dizer isso a ela? Amor, como foi no trabalho? Eu passei no supermercado e comprei aquela maionese temperada que você gosta. Ah! Fui no médico e ele disse que sou oco por dentro. Droga, esqueci das azeitonas... - Acho que pode funcionar. - Assim, no meio de outras coisas? - É claro. Pegue essa flor aqui, dê pra ela. Ela vai adorar. - Muito obrigado doutor. - Boa sorte. Passar bem!
Escrito por Rogério às 22h19 [ ] [ envie esta mensagem ] Manifesto Gorilista Está fundado o Gorilismo O Gorilismo atinge seu apogeu O Gorilismo vai mal de saúde O Gorilismo morreu Está encerrado o Gorilismo Recebo meus próprios versos por e-mail. Mudado. Meu nome não está nele. Faltam uns versos. Fernando Pessoa, Drummond. Continuam escrevendo, mesmo falecidos. O artista está vivo, mas não assina sua obra. Estou farto do lirismo dos bêbados. Ao mesmo tempo, gosto daquilo que não presta. Quem pode dizer? Há versos feitos para o autor. E há outros feitos para o leitor. Saraus, chácaras, sapatos, e convites por uma garrafa de cachaça. Os leitores de poesia não conseguem novos livros. Cyberpoesia, quase interativa. Mais autores que leitores. E poucos dos primeiros também são os segundos. Entendo a sua liberdade, mas pelo amor de Deus, escreva um poema compreensível, ou sensível. Poemas, imagens. O poema se mexe. O poema está vivo. Mas o poeta está morto. O poema é uma construção de sensibilidade. Já sabemos da agonia, da vida no escuro, do verso da afronta. Afronte quem quiser. Leia quem quiser. Queremos um mundo mais tolerante. Beleza também não faz mal. E um banho faz até bem para a saúde. Quem faz um poema salva um afogado. Escrito por Rogério às 22h29 [ ] [ envie esta mensagem ] |
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